Aprendizagem social e emocional – como trabalhá-la?

Alzira Willcox

 

Há no ar um burburinho sobre aprendizagem social e emocional. Fala-se em ter na grade curricular curso de aprendizagem social e emocional. Logo que ouvi sobre essa ideia, corri atrás para pesquisar, saber qual, afinal, seria o conteúdo desse curso. Em mim soou como algo semelhante a autoajuda. Levantei alguns tópicos sobre o assunto.
Logo descobri que os americanos, que sempre saem na frente e de quem copiamos quase tudo, já têm uma sigla para “social emotional learning” e é SEL. SEL é o processo de ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades para administra suas emoções, resolver conflitos e tomar decisões sensatas e com responsabilidade. Embora admitam que a família e as relações sociais estimulem a inteligência emocional e a formação de bom caráter, à escola cabe reforçar essa tarefa, criando uma aprendizagem social e emocional segura, acolhedora e integrada ao currículo.
Pesquisas nos Estados Unidos mostram que a promoção de situações que visem a desenvolver habilidades sociais e emocionais tende a reduzir violência e agressão entre as crianças. E mais, melhora o desempenho acadêmico e certamente vai fazer parte da bagagem que os alunos levarão consigo para o mundo do trabalho. A ideia que dá suporte ao trabalho com aprendizagem social e emocional é que estudantes que se sentem seguros e respeitados podem ser mais aplicados e obter melhores resultados acadêmicos. Estudantes que são encorajados a praticar a regra de ouro de Kant – sobre a qual Bia Willcox escreveu um artigo – acharão mais fácil lidar com o ambiente escolar e conviver melhor no mundo em geral.
Na proposta de aprendizagem social e emocional, educadores orientam crianças na resolução de conflitos e mostram como negociar, como conduzir um debate de diferentes opiniões sem partir para o ataque pessoal. Aceitar as diferenças de atitudes, crenças e valores sem agredir o outro, sem tentar impor o seu ponto de vista. Aprendizagem social e emocional visa a educar as crianças sobre assédio e bullying destrutivo e oriundo de preconceito quanto à posição social, origem étnica ou orientação sexual. O objetivo principal da proposta é estabelecer um ambiente de confiança e respeito em sala de aula e que certamente se refletirá fora da escola.
E qual é a chave do trabalho? Desenvolver empatia – falamos da regra de ouro. É preciso urgentemente mostrar às crianças que adquirir conhecimentos acadêmicos e tirar boas e ótimas notas não é suficiente para que elas sejam consideradas excelentes alunas. Elas devem também ser ensinadas a trabalhar em grupo, entender que juntas podem render mais e que a cooperação é muito mais construtiva e importante do que a competição. O professor deve desenvolver estratégias e dar aos alunos ferramentas que os dirijam para aprender a cooperar.
Como trabalhar a aprendizagem social e emocional? A meu ver, não há necessidade de planejar um curso de aprendizagem social e emocional. Fixem-se os objetivos que se pretendem alcançar nessa área e integrem tais objetivos a projetos de qualquer área do conhecimento. Aqui, não podemos deixar de ressaltar a importância de se trabalhar com Projetos temáticos que vão possibilitar a inclusão de temas transversais. Em projetos, pesquisando, construindo maquetes, cartazes ou diferentes objetos, os estudantes trabalham em grupo, têm uma participação ativa, interagem com seus pares e com o professor. Claro que essa é uma proposta que permite a aprendizagem social e emocional com mediação do professor, sendo indispensável uma avaliação final do grupo quando se discutirá a participação de cada um, pontos fracos e fortes do grupo no desenvolvimento do trabalho, nível de cooperação e investimento pessoal no bem-estar geral. Isso é trabalhar o social e o emocional no dia a dia da sala de aula.
As pesquisas levadas a efeito nos Estados Unidos mostram que a aprendizagem social e emocional (SEL em inglês) pode ter um impacto positivo no desempenho acadêmico dos estudantes. E os pesquisadores organizaram uma lista com as competências que se desejam desenvolver para manter as relações sociais em alto nível e preparar para os desafios da vida.
1. Autoconsciência ou autoconhecimento
2. Autocontrole ou autogestão
3. Consciência social
4. Habilidades nas relações interpessoais
5. Responsabilidade por decisões tomadas
Nenhuma habilidade ou competência nova que exija uma aula especial. Claro está que a cada um desses itens corresponde um grupo de objetivos a ser atingido. Através de perguntas que descortinem boas estratégias, o trabalho pode fluir transversalmente.
As relações e os processos emocionais afetam a aprendizagem e disso ninguém duvida. Preocupa-me criarem programas específicos para aprendizagem social e emocional em cursos paralelos dentro da escola. É o modelo americano que vem sendo adotado pelos empresários da Educação no Brasil. Interessante fortalecer a relação dos estudantes com seus pares, família e professores. Sem dúvida alguma. Mas transformar em curso com a sigla SEL não será uma forma de delegar mais responsabilidade à escola no campo específico da educação que é responsabilidade da família?
Prestar atenção ao aspecto social e emocional dos estudantes, propondo projetos e trabalhando temas transversais que priorizem as competências elencadas, é realmente importante e premente. Preparar os pais para o desenvolvimento da empatia nas crianças também é necessário. A escola tem que trabalhar em harmonia com a família, sempre. E envolver os pais em projetos que abracem também os processos emocionais e sociais que são de extrema importância. Talvez seja o caminho para evitar a agressividade e o bullying nas escolas.
Adotar uma inovação, copiada de outra realidade, sem uma análise aprofundada é questionável. Sempre me preocupam os modismos em educação.